sexta-feira, 11 de março de 2011

Orquestra Textual Avalovara apresenta

SATREOPN








transe em trânsito por temas oito de palavras cinco e letras cinco no relógio de Julius Heckethorn – em pulsos sílfides, quarto-e-sala ou quase um fosso de elevador – que marcam saltos, apanhados, cornos, punhais da língua, bicos e aves negras no ventre que da boca da ave sem nome, talvez de um livro, em vôo de queda livre na leveza da espiral que rebate e bate e bate e rebate, recurvam o corvo em círculo: pois é de nascer e nascer como cem bocas que lêem um texto na lápide de Leonardo ou na palma da mão que encanta o duplo silvo do pássaro que situa o salto no quase claro de uma língua duas vezes estrangeira dos dois círculos de Roos e cercanias. Clarividência sideral no dorso com dorso do face a face no bico com bico e se bicando na sobreposição que suprime a , pois se lá se expira um corno arranha e marca na pele profunda do sonho semicerrado da criação que sulca o criador que sustém o susto no sulco ainda ausente e mas talvez já lá no preciso, eu disse preciso, preciso!, trópico e eclipse do Unicórnio e velocípede de rodas quadradas que ruma ao fundo obscuro que tende ao negro cair, da pena da ave, da cena da cópula, da papoula e Iólipo, do olho de cem meninas e do rumor de cem bocas de cem borboletas de cem mariposas em um único curso e torneio que se nomeia e numera e marca o fragmento que só ali está no brilho do olho daquela sem porquê sem o onde sem o nome que especula o quarto-e-sala crocodilo corpo tapete tigre arara no olho a olho a olho nu no dorso dos dois mil olhos duplos: encontros, percursos, revelações. O torno de um real onírico no corno rígido solo e suas voltas precisas como um sorvete italiano de máquinas de Cassino ou perto da casa da Gorda, ranço e dourado, branco, besteiras de Paris um trem e o segundo círculo de Roos em Amsterdan: Abel tem suas torres, cada uma ereta como sua língua lambendo a tela de aço fina das janelas para não saltar e as letras finas todas ornadas no volume velho da lablirintoteca, pés seios cornos, a pata esquerda traseira ferida e as três rodas do velocípede que precipita o salto no elevador sem tela e ela é o pássaro que cai e o olho que rapina em sobrevôo o peixe que salta do mar um peixe sem narinas só guelras um peixe que salta do mar e um salto é uma vida um lance no qual se lança fora do mar e num torneio ou outro o salto é iluminação ou carnação no bico de um pássaro que precipita a queda no ventre que é ela, nascida e nascida, e um olho que especula fecha a cena e o velocípede é veloz a leitura fechada na roda esquerda traseira veloz e o pé de menina na sandália desfocada sobe e retorna é fechada na roda a leitura a cena e a roda mais a frente já não é quadrada é círculo um ponto no centro e dois traços duas varas de orquestra pois cada mão é só é duas cada e os dois traços de espanto de linha e do carpete que abafa ao piso que crepita o plástico roda-gira o grito da boca que não fala, do ralo de escorrer gente, do beira fosso e os sem-narinas mil tictac’s pausa e sombra e cair e saltar um outro pedaço outro torneio de Abel babilônico que de verso pra frente e de verso em verso a verso versa a ela, revela o reverso dela, tenta fisgar o peixe, tela da rede do quadrado molhada a tela pela boca descendo com a chumbada e lá o lodo do fundo e o fisgo da tela cinco por cinco e um bico negro pula e lhe rouba a boca papoula língua e nariz. [Suspender o ar. Ler um intervalo ou janela de trem, sobre o unicórnio com greta ferida o som das cidades passando ao largo, negro, talvez nada mais que um espio pela janela do quarto-e-sala. Algumas luzes, nenhuma sombra.] – Entre caibros e telhas sem peso: não há cidade para a narrativa que corre fechada nas duas mãos unidas que correm pelas pontas dos dedos e sustentam um mundo tênue – nuca de fios longos e ruivos e leves, um vento, sopro díssono, melopoética efemereterna na cabeleira negra-mar onde não há pois só há detalhes na execução mesmo se semicerrados e hemilabiais as dissonantes bocas e olhos semitonstos doze um relógio cravado na tatuagem do tapete revela a guelra um tigre e os fios rubros úvula é a cor e o pássaro composto que prolonga o salto a oveira do peixe na curvo bico se espalha e salto e queda é ela nascida e nascida sem cidade e que abre os braços em t e o pescoço escorre nas costas brancas na beira do cemitério marinho onde pairam os de capas amarelas varas e técnicas de pescaria ritmada – cá e lá de semprenunca, cravo e mandolin: o onde, o nome, o porquê: nada soa mais alto mais profundo mais extremo que a hora e o lugar no exato trópico imbatizável lá é cá querer é criar os dedos repassam as oito cordas que se repetem aos pares soando duplas e a leitura sonada de sator arepo tenet opera rotas grita em Iólipo e Unicórnio os o’s de Roos e a O E A vogados sobe e desce na escala mão marcada ao rebento da corda rebentada um troço um traço outro na leitura dos temas cinco de letras cinco de linhas cinco por cinco palavras e letras pele branca marcada é pássaro negro e o relógio o relógio de Julius Heckethorn retorna preciso escrever isso preciso escrever isso preciso escrever isso preciso escrever isso preciso como a precisa orquestra de um cravo preciso escrever isso preciso escrever isso preciso escrever isso que cresce salta e afunda eu vou saltar eu vou saltar e pedalo rápido os dedos da mão marcada correm eu quero tocar o sol no fundo onde os peixes com ele se misturam carpete e piso e pedalo reto reto uma tortura tonta Viena da hora extrema o lugar extremo dorso com dorso cara com cara um fosso de quarto-e-sala uma corda arrebenta na orquestra de um cravo-mandolin só escrever isso escrever isso escrever escrever escrever o salto e queda ela salto e queda nome onde porquê






SATREOPN

SATREOPN

Partitura Textual
[Da espiral e o quadrado; Dos triângulos e a estrela.]





TEXTO REFERENCIAL
LINS, Osman. Avalovara. 6ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


[Composta para o Seminário Avançado O que é o ato de criação? Método Valéry-Deleuze, ministrado pela Profª Drª Sandra Mara Corazza, junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.]

terça-feira, 1 de março de 2011

[branca]

lucila já a palavra vaga
alguma h hýbris
o mimo em papel camurça branco

galáxias?

a paixão branca
branca como o intervalo nu

[branca]

a palavra tua pele a página
bailarina esguia camurça
teu corpo um mantra nuca e vincos

a paixão branca
arde

preto e forte na xícara larga meias
bolinhas lã segunda pele
finos dedos - transparentes no
nexo constelário vulto manto

a palavra tua pele arde

[branca]

figura de palavras: vida (1)

esqueletos polidos
poliedros
ecos de diamante
esta face é um sinal
um sinal
esta face
heliotropias espelhos espectros
nuvens convexas como dedos
estalidos de dedos
esta face é um espelho
e um sinal
poliedro polieco
vacante de espaços
armários onde o sol
não chega para a desova
diurna
urna esta face o sinal
fechado no sobretudo violeta
um corpo
um corpo
a água se represa na minúcia
e lacrima no olho
desordens centopéias centauros fingidos
fogos de palha tempestades
no copo
um cemitério de fosfóros riscados
piróvagos

a palavra é isto vulva
de cadela úvula
vibrante de som

migranas fantasmagorias
um gosto de escarlate
nas narinas

a palavra pode isso
tudo pede
isso tudo

perde isso tudo papilas
amônia precipitada harmonias
contactos
pupilas

a palavra

amor êxtases emulsões
sinuosidades constelantes
nus

sob lentes grossas
sob uma ducha de nitrato de
prata



(do Signantia, de Haroldo de Campos.)