terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Quedas e Viragens

A obra desenvolve-se a partir, em torno de uma rachadura que ela jamais consegue preencher. Que o romance, notadamente depois de Joyce, tenha encontrado uma nova linguagem do tipo "Questionário" ou "Inquisitório", que ele tenha apresentado acontecimentos e personagens essencialmente problemáticos não significa, evidentemente, que não se esteja seguro de nada; não é, evidentemente, a aplicação de um método de dúvida generalizada, não é o signo de um ceticismo moderno, mas, ao contrário, a descoberta do problemático e da questão como horizonte transcendental, como foco transcendental que pertence de maneira "essencial" aos seres, às coisas, aos acontecimentos. É a descoberta romanesca da Idéia, ou sua descoberta teatral, ou sua descoberta musical, ou sua descoberta filosófica...; é, ao mesmo tempo, a descoberta de um exercício transcendente da sensibilidade, da memória-imaginante, da linguagem, do pensamento, descoberta pela qual cada uma destas faculdades se comunica com as outras em plena discordância e se abre à diferença do Ser, tomando como objeto, isto é, como questão, sua própria diferença: tem-se, assim, essa escrita que nada mais é do que a questão O que é escrever? ou essa sensibilidade que é apenas O que é sentir? e esse pensamento, O que significa pensar?


Gilles Deleuze

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