sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O inominável

Ah essa voz cega, e esses instantes de respiração suspensa em que todo o mundo escuta perdidamente, e a voz que recomeça a tatear, sem saber o que procura, e de novo o ínfimo silêncio, à espreita de não se sabe o quê, um sinal de vida, deve ser isso, um sinal de vida que escaparia a alguém, que se negaria se viesse, é certamente isso, se tudo isso pudesse acabar, seria a paz, não, você não acreditaria nisso,ficaria na tocaia, da voz de novo, de um sinal de vida, que alguém se traísse, ou de outra coisa, uma coisa qualquer, que pode haver mais do que sinais de vida, um alfinete que cai, uma folha que se agita, ou o gritinho que soltam as rãs quando a foice as corta em duas, ou quando as acertam, na água, com a lança, você poderia multiplicar os exemplos, seria mesmo uma excelente ideia, mas aí está, você não pode. Talvez fosse preciso ser cego, cego ouve-se melhor, não são informações que faltam, temos em nossa bagagem afinadores de piano, dão o lá e ouvem o sol, dois minutos depois, não se vê nada de qualquer modo, esse olho é uma miragem. Mas não é Worm que está falando. É verdade, até agora, quem diz o contrário, seria prematuro. Eu também não, se formos por aí. E Mahood é notoriamente afônico. A questão não está aí, no momento, não se sabe onde ela está, mas não está aí, por ora.

O inominável, Beckett.
Tradução: Ana Helena Souza
p.132

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